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Entra no salão discreta; todos com as caras enfiadas em seus computadores velhos. Repartição é isso mesmo, todo mundo o dia inteiro em frente a essas máquinas que, de uma década pra outra, pareceram concentrar em si as funções do mundo – o resto do universo pode ir pro descarte que não vai fazer falta, enquanto existirem computadores existirá trabalho a ser feito. Enfim, ela entra e ninguém levanta o olho enquanto ela não fala seu bom-dia! diário; em coro, um simples bom-dia! em resposta, até que ela própria vai se conectar com o mundo através da sua janela de ferro retorcido, silício e plástico.
Tudo muito rápido, mas ela acaricia você com os olhos cada vez que entra na sala, de alguma forma isso acontece; você não sabe como, mas sente o toque e, confusa, se volta para a sua tela sem saber se de fato isso aconteceu – ou se foi apenas reflexo da sua tendência a achar que todas as mulheres interessantes do mundo são lésbicas.
Então um dia ela lhe pede que busque uns processos. Você tem toda a consciência do mundo de que, quando ela se dirige a você, seus olhos enxergam nos dela sorrisos outros que não o dos lábios, e você desvia o olhar, sem coragem de manter um contato que vá além dos limites que os malditos processos estabelecem. Nada do: “você tá tão bonita hoje, N., essas botas ficaram ótimas”, que você tinha pensado em falar pra tentar uma aproximação. Não, resigna-se apenas em dizer o mais imbecil e neutro “claro, pego sim” e mudar a direção dos olhos. Não consegue nem sustentar o próprio interesse, mas corre imediatamente atrás do que lhe foi requisitado. Elevador para o primeiro andar e lhe mandam voltar, “o sistema tá atrasado, aqui no caderninho diz que já devolvemos o processo 8.972.263-627/2009 pra vocês há mais de 10 dias, alguém deve ter esquecido de dar baixa”. ‘Porra, nada nessa merda de lugar é simples’ e sobe tudo de novo e revira os arquivos e abre os armários e olha na mesa de fulana e é lá que você acha ele – é lá onde tudo sempre vai parar.
Na volta, sentimento de dever cumprido. “Nossa, já? Encontrou rapidinho o processo”, e você sorri meio sem jeito com aquele peso dos doze volumes nas mãos. Na hora de passar a pilha pros braços dela, um contato: suas mãos estavam baixas pelo excesso de peso, mas será que ela realmente precisava passar a mão dela na sua buceta pra pegar os volumes? Mesmo desconcertada você arrisca, passa suavemente os ombros em seus seios como resposta.
Você volta pra mesa, pra casa, pro chuveiro, com essa sensação entre as pernas e uma imagem de lábios maliciosos na cabeça – daqueles que sorriem numa face de anjo, principalmente quando sabem que transtornaram.
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Imagem de: Erika Kuhn
2 COMENTÁRIOS |:
muito, mas muito bem escrito. Gostei mesmo, quero ver mais >>
que doido,,,
muito legal aqui
volto!
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