Abriu a porta do quarto com rapidez felina e seus olhos também de gata noturna não deixaram de perceber o movimento tipicamente masculino de acender, ao primeiro emergir dos odores do sexo, a luz de onde este se daria (ele, o sexo) - para não perder por um segundo que fosse as mais belas visões que seu corpo poderia proporcionar a ele, um notívago carente, com certeza; que motivo mais óbvio, ela pensou e sorriu – um sorriso daqueles um tanto malvado que só as mulheres com algumas tantas experiências podem transmitir e que os homens, com freqüência, interpretam como tesão quando de fato é apenas a mais gritante evidência de um desejo que não quer desejar, de um ódio pelo objeto deste desejo e da vontade de punir este objeto por ser capaz de despertar vontade. Seria bom viver sozinha não é, s.? sendo dona de seus anseios e da forma como saciá-los, sendo a fonte única da sua própria angústia; mas você não suporta, não é mesmo, s.,?, você não suporta a sua própria dor e necessita dividir seu corpo como quem divide um medo. E ele não poderia olhar para além da carne macia e alva dos seios e da bunda perfeita, não, ele não conseguiria, simplesmente pela impossibilidade de enxergar um pouco além do seu próprio desejo de escorrer para dentro dela seu líquido branco como a pele aquela, fétido como a alma de qualquer homem. Ironia saber que o que nos dá a metade de nós é cândido e podre, dois lados dessa névoa que nos acompanha pelo caminho. E por que é apenas o cheiro que lhe chama a atenção, s.? é ele quem lhe dá a desculpa de fazer o que pensa que quer fazer? afinal, qual a graça de se sujar se você não pode brincar antes, não é verdade? Jogou-o sobre a cama num gesto que seria tido como violento e ríspido, digo, seria, em qualquer outra situação, não naquela; como era de se esperar não foi um semblante agressivo que respondeu à altura a rude atitude e sim um sorriso desafiador e um pau mais endurecido ainda; tirou os grampos primeiro e depois um sapato e o outro e os brincos, manteve em si o longo colar – combinando com seus olhos negros – após um longo momento de hesitação proposital e de uma interferência inconveniente de quem mal parecia se controlar, livrou-se do vestido vermelho deixando visível o que ele já havia notado com as mãos, a lingerie de mesma cor; e dá pra imaginar o que essa cena causaria em qualquer mulher ou homem, aquela toda beleza ali, parada, nua a não ser por um corpete vermelho e uma calcinha de acompanhante, daquelas dos quaisquer sonhos eróticos – tradicionais ou pervertidos – e falo toda beleza porque não é uma beleza que vem do corpo, também do corpo, não sejamos hipócritas, mas uma beleza que vem de dentro, mais do que o clichê vem de dentro, uma beleza que vem de algo que só pode ser dor, bela como uma cicatriz – uma marca. Nenhum ser humano em estado de excitação como o dele notaria ou se perguntaria quais caminhos levam a tamanha beleza e pensaria apenas na necessidade eminente de desfrutá-la, consumi-la, comê-la. Caminhou para aquele olhar nocivo que a tentava tocar; e, evitando o toque, buscou na gaveta ao lado da cama dois cachecóis com os quais prendeu as mãos do cara à cabeceira; posicionou-se exatamente sobre a sua cabeça e ele de pronto começou a chupá-la; após o gozo é a vez do tal, como ele não demorou em lembrar; sem soltar suas mãos ela subiu logo sobre ele de costas para os olhos que a devoravam antes de comê-la, não precisou muito esforço, ele logo gozou; imediatamente ela acendeu um cigarro e foi fumar na sala enquanto o poeta-músico, o senhor, o estudante, o garçom ou qualquer outro tipo noturno permaneceu atado. Ele não pode tocar você, s., ele tocou a sua boceta por dentro e não pode tocar sua pele. você já percebeu, s.? mudam as pessoas mas nada muda nas pessoas; mudam as pessoas e nada muda em você.
***
"Tudo o que falo é de ausências. Se ele chega, lhe aponto a faca, sorrio como quem esconde um segredo – verifique as crenças ou lhe arranco as falanges, Tomé, depois as mãos inteiras: eu cerceio tudo o que for de ti para que creias em meu corpo tomado por espirais, meu corpo sempre retornando e recompreendendo, referindo-se a uma beleza antiga e mutilada. Tomé, cego e sem mãos, me lembra um menino que conheci na infância e que nunca mais poderá tocar."
Teoria do Não Entendimento: http://bossa-velha.blogspot.com/
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(Mais de s. em por doses de s)
1 COMENTÁRIOS |:
"Ironia saber que o que nos dá a metade de nós é cândido e podre, dois lados dessa névoa que nos acompanha pelo caminho."
Frase da vida, Leila.
A S. pra mim é a Patrícia Arquette no clipe de Like a Rolling Stone.
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