Entrou no quarto escuro sem grandes expectativas – se alguma houvesse pouca seria, sem dúvidas. Quanto à roupa, tirou-a num gesto mecânico, daqueles de quem quer se ver livre de uma função incômoda, porém irrecusável. Horas antes estava a olhar pro enorme espelho estrategicamente dependurado em frente ao banheiro; era comum que após o ritual de banhar-se por horas a fio – digno do esfregar-se diário de Remédios, a Bela – se pusesse por um tempo indizível diante do companheiro implacável que lhe tinha a mania de refletir a vida sem eufemismos. Atirou-se nua na cama; as gotas d’água ainda escorrendo pelo corpo demasiadamente branco, e os cabelos muito negros e longos contrastavam com o escarlate dos lençóis da cama de casal – que casal? Deitou-se; no movimento brusco, o instantâneo abrir da toalha; atirou-a ao chão. Esticou-se, deitada ainda, a fim de procurar um cigarro na mesa-de-cabeceira repleta de livros, copos, isqueiros, papéis com escritos desconexos; um longo trago depois de aceso e fechou os olhos; preguiça de pensar. Terminou o cigarro em pé e logo se pôs a abrir gavetas, agachar à procura de sapatos, tirar roupas de cabides experimentando-as sem vesti-las em frente ao espelho. Colocou o corpete vermelho acompanhado de uma calcinha de renda da mesma cor – larga nas laterais, cavada na parte de trás; por cima um vestido carmim que, se não fosse pela cor, não seria tão extremamente provocante porque não era de todo colado, nem mesmo curto – apesar de deixar bem marcados os pequenos seios no decote em v.
O que a tornava irresistível era um conjunto de coisas: os lábios em vermelho, os longos cabelos negros desenrolados até quase a cintura, a pele muito alva em contraste com o vestido de cor intensa, o os olhos muito escuros; mas o que a fazia única era algo que não se consegue tocar, é aquilo que fica no ar e que as pessoas, por ausência de definições mais específicas, acostumaram-se a chamar de charme. Sentou-se no balcão do bar. O garçom cumprimentou-a pelo nome; sem perguntar ele abriu uma long neck de Heineken e a colocou em sua frente; a cena repetiu-se consideravelmente no espaço de algumas horas. Quase sempre algum homem chegava buscando, num diálogo superficial, alcançar o que era nitidamente intangível; quando assim, simplesmente voltava os lábios vermelhos para o lado oposto interessando-se por qualquer coisa que merecesse um segundo do seu olhar negro – ou não; os caras se retiravam resignados e a noite permanecia no seu marasmo rotineiro.
No meio da madrugada desviava o rosto; os olhos percorrendo lentamente toda a extensão das mesas postas sob a marquise do prédio comercial da entrequadra norte – àquela hora num meio de semana, poucos sobreviventes na noite etílica brasiliense; havia quase sempre algum cara sentado só à mesa mais ao canto: um cabeludo bêbado curtindo o blues enquanto o garçom se apressa em recolher as mesas e acertar as contas, um universitário com carinha de intelectual abrindo uma edição surrada de Além do Bem e do Mal ao secar mais um copo da cachaça mais vagabunda do boteco pela terceira noite seguida, um poeta-músico dedilhando seu violão a cantar amargurado os versos dos seus amores inventados, um coroa que se perdeu no caminho de casa acabando num bar fodido até às 3h da manhã – havia sempre alguém numa dessas mesas; então procurava o espelho que dava de frente pro balcão, jogava o cabelo de lado, retocava o batom e pedia a última cerveja da noite; depois de pagar a conta se levantava e, sem maiores explicações, sentava-se à mesa do eleito noturno – o da noite em questão era um do tipo poeta-músico.
O que a tornava irresistível era um conjunto de coisas: os lábios em vermelho, os longos cabelos negros desenrolados até quase a cintura, a pele muito alva em contraste com o vestido de cor intensa, o os olhos muito escuros; mas o que a fazia única era algo que não se consegue tocar, é aquilo que fica no ar e que as pessoas, por ausência de definições mais específicas, acostumaram-se a chamar de charme. Sentou-se no balcão do bar. O garçom cumprimentou-a pelo nome; sem perguntar ele abriu uma long neck de Heineken e a colocou em sua frente; a cena repetiu-se consideravelmente no espaço de algumas horas. Quase sempre algum homem chegava buscando, num diálogo superficial, alcançar o que era nitidamente intangível; quando assim, simplesmente voltava os lábios vermelhos para o lado oposto interessando-se por qualquer coisa que merecesse um segundo do seu olhar negro – ou não; os caras se retiravam resignados e a noite permanecia no seu marasmo rotineiro.
No meio da madrugada desviava o rosto; os olhos percorrendo lentamente toda a extensão das mesas postas sob a marquise do prédio comercial da entrequadra norte – àquela hora num meio de semana, poucos sobreviventes na noite etílica brasiliense; havia quase sempre algum cara sentado só à mesa mais ao canto: um cabeludo bêbado curtindo o blues enquanto o garçom se apressa em recolher as mesas e acertar as contas, um universitário com carinha de intelectual abrindo uma edição surrada de Além do Bem e do Mal ao secar mais um copo da cachaça mais vagabunda do boteco pela terceira noite seguida, um poeta-músico dedilhando seu violão a cantar amargurado os versos dos seus amores inventados, um coroa que se perdeu no caminho de casa acabando num bar fodido até às 3h da manhã – havia sempre alguém numa dessas mesas; então procurava o espelho que dava de frente pro balcão, jogava o cabelo de lado, retocava o batom e pedia a última cerveja da noite; depois de pagar a conta se levantava e, sem maiores explicações, sentava-se à mesa do eleito noturno – o da noite em questão era um do tipo poeta-músico.
(CONTINUA)
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(Mais de s. em por doses de s)
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