07/12/2009

Castelo de Areia

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Sentes o sussurro amargo reverberando em teus tépidos tímpanos?
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O som há muito cessou, porém a voz grave de Hendrix ecoa por tua alma vazia, ainda. Há marcas; e pelos lados todos, flagelo. Suave teu rosto, delicado o gosto, o cheiro; teu coração, entretanto, fede a carniça.
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Quantos corpos mal sepultados corroem teu espírito, menina?
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Inerte, assistes a tudo passivamente. O veneno percorre teu corpo, matando teu sangue aos poucos. De todos os cadáveres que não enterrastes, um permanece inspirando teu sustento instante após instante. Não passa de matéria morta, mas não consegues perceber. Não tem vida alguma, entretanto permaneces a cuidá-lo com esmero, a lembrá-lo a todo o momento, a alimentá-lo de cigarros, álcool e lágrimas, em teu ritual macabro diário. Um único adeus e ele se vai...
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Por que não o deixas partir, menina, não percebes que já estás sozinha?
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É carne morta o que corre por dentro de ti. Já não sentes calor, nem frio. Contemplas o vazio enquanto lentamente definhas. És jovem, mas não te lembras disso. E, ainda que no semblante não deixes transparecer, carregas nos olhos um coração enrugado. Não, não foi o relógio quem carregou tua juventude com um sopro, menina.
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Quem foi, então, que se apoderou de teus breves anos?
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Tuas palavras pouco, ou nada, diziam. Fugias com aridez felina do confronto com que sonhavas noite após noite. Sabias o que sentias e querias e tinhas certeza de que eras correspondida. Entretanto tuas mãos permaneceram atadas, menina. (O relógio corre impiedosamente! O mundo permanece a girar! As coisas mudam, menina, as coisas têm pressa de viver!) Enquanto isso, da sacada de teu apartamento, vislumbravas a rua sob a chuva torrencial. Teus pensamentos não foram longe; tuas ações permaneceram restritas ao plano nebuloso das idéias tidas como irrealizáveis. Tuas atitudes estariam para sempre presas sob a caixa de mármore na qual transformastes o teu corpo de bailarina. Tão linda e fina e fria. A arte! A arte já não se achava mais ar; transmutara-se em fuga e devaneio e abstração e um pouco de calor para teu corpo de vazio secular. Ainda consegues sentir, menina! Não percebes que este pouco é sintoma de brasa habitando teu templo?
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Sentes? Sentes já por dentre as pernas a calidez a lhe subir?
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Não, as labaredas não passaram de faíscas jogadas por entre o aço, o ferro, o estrume ainda úmido. Na cama olhastes para o lado. Mirastes olhos ainda sedentos de tua carne. Não sabiam, míseros olhos, que apesar do esplendor que carregavas por fora, eras matéria morta apodrecendo por dentro. Não tinhas mais nada a oferecer, nem a olhos, nem a falo algum. Entre os longos dedos, ainda deitada à cama, dás ao cigarro um duradouro trago. A fumaça adentra os pulmões, mas não os preenche. Vazio; é vazio ainda tudo, tudo... Tuas lágrimas já não vertem sentimentos, gestos mecânicos de quem não mais se sabe sem dor.
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Por quanto tempo mais arrastar-se-á sem gritar por vida?
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(Não chores, menina, ainda és moça jovem, bonita. O tempo ainda não
passou por ti, com suas ventosas sedentas de pele e de lembranças;
não, ele não passou. És moça, és jovem, és bonita. Tens todo
o tempo do mundo. Tens o tempo e o mundo.
Não, não chores mais.)
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O disco há muito acabou, mas gira na vitrola sem ter quem o pare. Sobre o chão uma menina de mármore mirando uma parede vermelha. A música, entretanto, permanece ecoando pelas entrelinhas do quarto vazio; castelos de areia, eventualmente, desmancham-se no mar...
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